Consigo facilmente me lembrar da primeira vez que a vi.
Você e aquele vestido amarelo, a pele branca e seu cabelo amarrado ainda estão na minha memória. Seu jeito despreocupado, olhando para a prateleira de livros, a mão no queixo, olhos simicerrados, buscando...
Eu me aproximei com o pretexto de procura apenas para te ver de perto, mas não pensei em puxar conversa, sou péssimo nisso e você sabe. Sabe da dificuldade que sempre tive com as mulheres. Mas naquele dia eu dei sorte. Não sei o que deu em mim, mas resolvi falar, e perguntei se você sabia onde eu poderia encontrar algum livro da Clarice Lispector- não sei por que escolhi essa escritora, li uns três livros dela e todos eu parei na metade- mas foi a primeira que me veio a mente e a partir do momento que você me olhou e sorriu, eu entendi. Eu escolhi Clarice por que era pra ser assim. Era para eu escolher sua escritora favorita.
E enquanto você sorria, eu fiquei parado achando que você me conhecia de algum lugar, ou que tinha me confundido com algum amigo, mas não, seu sorriso foi por ter me encontrado. Conversamos tanto naquele dia que eu nem vi o tempo passar. Decidimos jantar em algum lugar e fomos nos conhecendo, você me mostrando a beleza de Clarice enquanto eu tentava te convencer que era melhor ler Machado. E riamos. Riamos como rimos hoje de coisas tolas.
Eu tive medo enquanto estava indo para casa. Tive medo de que aquilo não passasse de um mero sonho; e até hoje, dois anos e meio depois de tudo aqui ter acontecido, eu tenho esse medo. Medo de acordar e não ver o bilhete na geladeira com um trecho de um poema qualquer para me desejar bom dia. Medo de que nossas discussões não sejam reais e de acordar no meio de uma. Medo de não estar escrevendo isso enquanto você dorme ao meu lado.
